A RESISTÊNCIA AO CHAMADO DO SENHOR: ILUMINAÇÃO BÍBLICA
20/07/2018 - 20h15 em Novidades
A RESISTÊNCIA AO CHAMADO DO SENHOR: ILUMINAÇÃO BÍBLICA 

Publicado por Frei Rogério Goldoni Silveira | 25/05/2018 - 17:04

A pergunta que o Agente Vocacional Capuchinho (AVCap) faz é: qual a razão para haver tanta resistência diante do chamado do Senhor. Se é um serviço tão bonito, de profunda entrega, por que se escuta tantos “nãos”.

Bem, um panorama sobre as dificuldades apresentadas na resposta ao chamado vocacional pode ser encontrado nos variados bons artigos já produzidos e na internet. Uns apontam pistas. Muitos, falam, falam... mas pouco resolvem.

Pensando nesta situação, resolveu-se, nestas páginas, escrever algo sobre a dificuldade na resposta ao chamado do Senhor focando a atuação do Agente Vocacional Capuchinho (AVCap). Ou seja, não serão dadas respostas definitivas acerca da resistência diante do chamado, mas serão apresentados alguns exemplos de pessoas que disseram seu “sim” em meio a resistência, com o intuito de levar o AVCap a uma reflexão à luz da fé. Para que? Para que sua atuação seja mais efetiva e eficaz.

 

1.  Chamado vocacional e a resistência na hora do “sim”

Ao ler os relatos do chamado dos apóstolos se tem a impressão que responder ao chamado do Senhor é algo fantasticamente simples. Parece que há apenas flores no caminho. Jesus chama e imediatamente eles o seguem (Mc 1,18; Mt 4,20).

Porém, a Sagrada Escritura também fala daqueles que apresentaram dificuldades no momento de sua resposta. Entres estes, destacam-se: Moisés, Jeremias, Isaías. Hoje, percebem-se outras situações na raiz da resistência ao chamado do Senhor. Mas estes exemplos da Escritura ajudarão a pensar no problema e lançar planos para o trabalho vocacional.

 

1.1   Moisés: o gago, de pouca prosa

O livro do Êxodo acentua a ação do Senhor em favor do povo escravizado no Egito. O Senhor viu, escutou e conheceu a realidade daquela gente e, portanto, desceu para fazer o povo subir para a terra prometida, ou seja, para libertá-lo (Ex 3,7-8).

É neste momento que aparece a figura de Moisés. Quando o Senhor fala da missão que lhe é confiada, Moisés diz: “perdão, Senhor, mas eu não sou bom de papo. [...] tenho a boca pesada, e pesada a língua” (Ex 4,10).

Quantas vezes o agente vocacional convida um jovem para uma experiência vocacional (encontro de discernimento, retiro...) e escuta respostas parecidas com a de Moisés! Dá a impressão que, para ser um vocacionado, precisa ser uma pessoa de outro mundo, com qualidades extraordinárias.

Cada vocacionado é marcado pela sua história, educação, sonhos e buscas. E é interessante o AVCap ajudar o vocacionado a reconhecer isso. Imagine o que seria da história se não tivesse um Amós, Oséias (ambos profetas)...! Foram homens com palavras apropriadas para o momento em que viviam. E foram totalmente marcados pela sua história.

Reflitamos sobre duas situações parecem importantes no chamado de Moisés: o diálogo e a segurança. O chamado vocacional é só o começo. Perceba: chamado e resposta são marcados pelo diálogo. Como o substantivo grego revela, diálogo (diá = através + logos = palavra) é algo que se dá através da palavra. Portanto, os espaços para diálogo precisam ser criados. É no momento do diálogo que se conhecem as inspirações, as motivações e se descobre a segurança.

À propósito: o Senhor deu alguma segurança para Moisés? Obviamente que sim! O Senhor enviou Aarão para ser o intérprete de Moisés (Ex 4,13-14) e, além disso, confiou-lhe algum tipo de poder manifestado no cajado de Moisés (Ex 4,3-5).

É importante o AVCap saber o que “oferecerá” ao vocacionado. Por isso, precisa conhecer mais sobre o carisma que abraçou na missão vocacional, precisa ser pessoa de oração e ter discernimento. Precisa fazer o papel de intermediário nesse diálogo do vocacionado com o Senhor. E lembre, precisa ter uma escuta precisa e muito afinada.

 

1.2   Isaías: o indigno

Outras vezes, o vocacionado se sente indigno, como se acercar-se do Senhor, o totalmente sagrado, fosse coisa só para pessoas puras, sem a marca do pecado. É o que ocorreu com Isaías: quando o Senhor o chamou, sua primeira resposta foi “ai de mim, estou perdido! Com efeito, sou homem de lábios impuros e vivo no meio de um povo de lábios impuros” (Is 6,5).

O chamado ao serviço do Reino pode causar alguma estranheza para o vocacionado, pois significa lidar com o sagrado, com o povo de Deus e com vidas. Isaías se sente impuro, pois era fruto da história do povo de Judá que, embora buscasse ao Senhor, cometia muitos delitos (Is 1,10-20). Ele deve ter pensado que o Senhor deveria chamar outra pessoa.

O papa João Paulo II, na encíclica Redemptoris Hominis (n. 10), disse algo que ajuda a pensar nessa dimensão:

o homem que quer compreender a si mesmo até o fundo – não só de acordo com critérios e medidas do próprio ser, imediatos, parciais, frequentemente superficiais, e mesmo ilusórios – deve, com a sua inquietude e incerteza e mesmo com a sua fraqueza e pecaminosidade, com sua vida e morte, aproximar-se de Cristo.

No final das contas, toda pessoa se sente indigna diante do Senhor. E no caso da atuação do AVCap, o que pode ser feito? Mais uma vez há a necessidade de se propiciar momentos de reflexão, oração, proximidade com o Senhor, para que o vocacionado se sinta, verdadeiramente, chamado pelo Senhor. Mas, em algum momento, a resposta deverá ser firme como a de Isaías: “Eis-me aqui, envia-me a mim!” (Is 6,8).

 

1.3   Jeremias: o pequeno

Jeremias é outro personagem bíblico que manifestou alguma incerteza diante do chamado do Senhor: “ah! Senhor Deus, eis que eu não sei falar, pois ainda sou criança!” (Jr 1,6). Veja: novamente uma desculpa no momento do chamado! Quais são as desculpas mais ouvidas pelos membros da tua equipe do SAV? E o que a equipe apresenta como resposta?

Para Jeremias, o Senhor apresenta uma palavra incisiva. Primeiramente diz: “antes mesmo de te modelar no ventre materno, eu te conheci [...] eu te consagrei” (Jr 1,5). Vale lembrar que “conhecer”, na Bíblia, não significa saber algo sobre outro ou alguém, mas ter intimidade. Portanto, o Senhor diz que conhece intimamente a Jeremias.

O AVCap precisa estar atendo aos sinais que revelam intimidade do vocacionado com o Senhor. A intimidade se revela no serviço na comunidade, na participação ativa, nos valores do Reino manifestados no dia-a-dia. Quais são os valores que você anda percebendo nos possíveis vocacionados? São valores do Reino?

Perceba: Jeremias não foi somente um profeta que atuava dentro do templo. No momento mais conturbado da história do povo hebreu, no exílio da Babilônia, ele também se fez presente. Foi exilado. Nesse sentido, é bonito perceber que este homem, que no momento do chamado era ainda muito jovem, se tornou um dos maiores profetas de Israel.

 

2.   “E eu com isso?”

Sim, esta deve ser a pergunta de todos os AVCap’s neste momento. “E eu com isso?” é a pergunta de quem se sente envolvido e questionado pela situação que foi refletida. Quer dizer que, diante da resistência ao chamado do Senhor, o AVCap pode pensar em oportunizar situações que levem o vocacionado a dar uma passo adiante e entender que “um pé no chão e outro no alto não significa que ele cairá, mas que poderá dar um importante passo”.

Nesse sentido, parece que o trabalho do SAV não será só o de organizar encontros, mas também de gerir uma espécie de escola vocacional, criando espaços nos quais: valorize-se o potencial de cada vocacionado; dê-se espaço para eles manifestarem seus pensamentos e sentimentos diante do chamado; seja reconhecida alguma segurança (não se trata de falar em salário ou em bens, postos que ele assumirá, mas ajuda-lo a perceber o tamanho da missão que poderá assumir); reze-se a vocação e a vida; propicie-se o diálogo com o Senhor (retiros, convivências, estudos, missões...).

Como fora dito no início, não foram propostas respostas definitivas, mas algumas luzes para o AVCap pensar sobre a sua atuação enquanto membro do SAV. Comente as perguntas propostas ao longo do texto e partilhe suas inquietações. Paz e Bem!

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